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Um namorado comprado pela TV que sai da tela e entra na sala: os televisores secretos dos clipes de Mike Sain't Louis
O artista indie alternativo de Madri, que se apresenta como «o primeiro cantautor IA», revisita as telas espalhadas pelo universo PLANETA GAYFOLK e conta por que a televisão foi, durante anos, sua única companhia

Madri, 25 de outubro de 2026 – Durante mais de quatro minutos e meio, o título de «3 años de garantía» fica parado num canto da tela, em letras laranja e brancas, igualzinho ao logotipo de um canal de televendas. É o primeiro sinal de que, no universo de Mike Sain't Louis, a televisão nunca é só um móvel. O artista indie alternativo, radicado em Madri, que se apresenta como «o primeiro cantautor IA», acaba de publicar em seu blog um passeio pelos televisores espalhados pelos seus videoclipes. E descobriu que são muito mais do que ele mesmo lembrava.
A TV como companhia
O texto começa com uma confissão sem drama. Houve anos em que a televisão foi a única companhia de verdade de Mike. Ele a ligava ao acordar, deixava de fundo enquanto fazia qualquer coisa e dormia com ela ligada para não ouvir o silêncio da casa. «Eu não assistia», escreve. «Eu escutava, como quem escuta alguém falando no quarto ao lado».
Talvez por isso as telas tenham se espalhado pelo PLANETA GAYFOLK, seu catálogo de 273 singles e mais de 280 videoclipes construído em cerca de dois anos de trabalho. No passeio aparecem uma TV de madeira numa sala dos anos setenta, um quarto cor-de-rosa com aparelhos ligados em volta da cama, uma sala com uma parede inteira de telas e um deserto onde os televisores ficaram largados na areia. Mike não quer contar nenhum vídeo inteiro. Quer entender o que uma televisão faz num planeta inventado.
O namorado de televendas
A tela mais engraçada está em «3 años de garantía», cujo clipe ele publicou numa sexta-feira, 3 de janeiro de 2025, por volta das oito e meia da noite no horário de Madri. Começa numa sala com cores de caramelo: uma poltrona verde-limão, outra roxa, um tapete felpudo, um lustre. No centro, sobre um móvel baixo, um televisor antigo com gabinete de madeira e botões redondos. Na tela, um rapaz moreno de camisa laranja sorri para a câmera, e logo aparece em primeiro plano diante de uma praia de água turquesa, com sorriso de propaganda de pasta de dente.
A letra vai direto ao ponto: «Anunciaron a un chico / muy mono moreno» («Anunciaram um rapaz / muito gatinho, moreno»). Sem metáfora: um namorado anunciado na TV, como um liquidificador ou um jogo de panelas. A canção segue toda a lógica da compra a distância: o pedido, a entrega em vinte e quatro horas, o pagamento na entrega, a avaliação na internet, o mês de teste e, claro, a garantia.
Quando a tela deixa de ser tela
O melhor momento do vídeo chega quando o moreno, que estava de sunga na praia dentro do aparelho, de repente aparece de pé na sala, descalço, de bermuda jeans, sorrindo como quem acabou de descer de um ônibus. Atrás dele, na TV, fica a praia vazia, com a areia dourada e uma palmeira ao fundo.
Para Mike, essa imagem é uma pequena joia. «É o sonho de qualquer pessoa que passou muitas noites sozinha diante da televisão», escreve. «Que aquilo que sai na tela saia de verdade e se sente no sofá com você». O clipe realiza esse desejo com toda a ingenuidade do mundo.
Mas a canção não fica nisso. Com dois anos o moreno começa a falhar, com três chega o calvário das reclamações, e o vídeo vai escurecendo até mostrar homens sozinhos em quartos na penumbra, com a cabeça entre as mãos. A sala colorida se apaga. É a parte em que a TV já não promete nada. Quem quiser saber o que veio depois desse namorado de televendas encontra a continuação direta em «Mi último ex era una IA disfrazada», em que a ideia de fabricar um namorado chega à inteligência artificial.
A única tela que fala com você
Debaixo da piada, Mike enxerga algo sério. A televenda é o único lugar da televisão que se dirige diretamente a você. Os apresentadores olham nos seus olhos, falam de você para você, dizem que você tem um problema e que eles têm a solução. Ligue agora. Só hoje. «Para quem passa o dia sozinho em casa, esse olhar para a câmera pode se parecer perigosamente com companhia», resume. Ele diz que nunca chegou a comprar um namorado pelo telefone, obviamente, mas entendeu muito bem a sensação.
Essa leitura conversa com um propósito que o artista já contou publicamente: com ajuda profissional, ele transforma em música anos de relações com parceiros narcisistas, para dar visibilidade ao abuso psicológico e às suas marcas na saúde mental.
Por que interessa ao público brasileiro
Poucos países têm uma relação tão íntima com a televisão quanto o Brasil, onde a TV aberta, as novelas e os programas de auditório fazem parte da memória afetiva de gerações. Quem cresceu com a TV ligada a tarde inteira vai reconhecer na hora o humor e a melancolia desses clipes. E Mike também escreve em português, além de espanhol, inglês e francês, com um estilo que vai do electropop à copla e do pop alternativo à balada.
A foto que acompanha esta nota mostra o artista em uma ponte sobre um rio, uma imagem de passagem que combina com o tema: atravessar de um lado para o outro, como o moreno que sai da tela.
Quem faz o quê
Mike Sain't Louis escreve todas as suas letras. A música e a interpretação vocal são feitas com inteligência artificial, que ele usa como ferramenta de produção e arranjo. A palavra, a ideia e a direção artística são dele. Muita gente o conheceu em 2024, quando «Tan Cateto» viralizou no TikTok.
Onde ouvir e baixar
Toda a música de Mike Sain't Louis pode ser ouvida e baixada de graça em https://mikesaintlouis.com, com a letra de cada canção. Também está no Spotify, no Deezer e nas principais plataformas. Mais no blog dele: https://mikesaintlouis.com/blog/un-moreno-que-sale-de-la-pantalla-un-dormitorio-de-teles-y-un-desierto-de-antenas-los-televisores-de-planeta-gayfolk
Sobre Mike Sain't Louis
Letrista, compositor, produtor musical, diretor artístico e CEO do próprio selo independente, MIKE SAIN'T LOUIS, o artista madrilenho trabalha sem gravadora e sem intermediários. Sua trilogia GAYFOLK, com «Descubierto un nuevo planeta llamado GAYFOLK», «Ojalá se pudiera viajar a GAYFOLK» e «El día de la liberación», conta a viagem até um planeta onde cada pessoa pode viver do jeito que é.
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