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Brasil ·

Sete lições de uma noite sem dormir: o que «Forocoches», de Mike Sain't Louis, ensina sobre ódio nas redes contra pessoas LGBTQIA+

O artista indie alternativo de Madri que se apresenta como «o primeiro cantautor IA» parte de um verso da própria canção para falar de ciberbullying, algoritmos e do que fazer quando o celular vira uma janela por onde entra o lixo

Homem de cabelo escuro cacheado e barba, com blazer de veludo cor de vinho, de pé em um estúdio de gravação com ripas de madeira nas paredes; à esquerda aparecem uma mesa de som e caixas de som, à direita um microfone condensador em um pedestal.
Mike Sain't Louis em um estúdio de gravação. No blog, ele usa um verso da canção «Forocoches» para discutir o ódio on-line contra a comunidade LGBTQIA+.

Madri, 25 de outubro de 2026.

«Me he despertado entre treinta insultos y reproches.» Acordei no meio de trinta insultos e reproches. O verso é de «Forocoches», canção de «El día de la liberación», o terceiro disco da trilogia GAYFOLK de Mike Sain't Louis. O artista indie alternativo baseado em Madri, que se apresenta como «o primeiro cantautor IA», usou essa linha como porta de entrada para um texto sério em seu blog: «Treinta insultos al despertar: odio en redes y ciberacoso LGTBIfóbico».

A seguir, as sete ideias centrais do artigo, comentadas.

1. Não é uma canção sobre internet

Pode parecer, mas não é. «Forocoches» é uma canção de término: uma noite em claro, fotos olhadas mil vezes, mensagens que não deveriam ser enviadas. O título pega o nome de um fórum espanhol muito conhecido, mas Mike esclarece que não fala do fórum nem de seus usuários. Usa o nome como imagem. No meio da noite aparece a frase que ele considera a melhor descrição que já escreveu sobre o barulho digital: «Ya no distingo si es mi vida o forocoches» — já não sei se é a minha vida ou um fórum.

Comentário: é o momento em que a própria vida parece uma thread sem fim, em que todo mundo opina, ninguém escuta e toda manhã é preciso ler o que disseram de você.

2. O celular nunca sai da mesa de cabeceira

Na canção, o telefone está sempre por perto. O narrador vigia um perfil de madrugada e acorda com reproches. Mike lembra que, durante séculos, o insulto ficava na rua, no pátio ou no bar. Você chegava em casa e fechava a porta. Hoje a porta não fecha. «O insulto viaja no seu bolso, entra na cama e te espera ao acordar», escreve.

Comentário: para uma pessoa LGBTQIA+ que já ouviu ofensas fora de casa, a tela pode virar mais um lugar onde não se está a salvo.

3. Os dados oficiais mostram só a ponta

O artista cita o relatório anual do Ministério do Interior da Espanha sobre crimes de ódio. No de 2023, foram registrados 223 fatos de ódio cometidos pela internet e redes sociais, 32 % a mais do que no ano anterior. Desses, 58 estavam ligados à orientação sexual e à identidade de gênero, contra 43 em 2022: alta de 35 %. Segundo o mesmo relatório, a internet era o meio mais usado para crimes e incidentes de ódio (39,01 % do total), seguida da telefonia e comunicações (26,91 %) e das redes sociais (25,11 %).

Comentário: Mike pede cuidado com esses números. São casos que chegaram às forças de segurança. A imensa maioria dos insultos nunca é denunciada: as pessoas apagam, bloqueiam, desligam o celular e seguem. O iceberg é bem maior.

4. O algoritmo premia a raiva

Uma pergunta acompanha o artista: por que as redes parecem tão cheias de ódio se, na vida diária, a maioria das pessoas que ele conhece é razoável? Parte da resposta está no funcionamento das plataformas. Conteúdos que provocam reações fortes, sobretudo raiva, recebem mais comentários, mais respostas e mais tempo de atenção. E o que recebe mais atenção é mais mostrado.

Ele dá um exemplo: uma notícia sobre dois homens que adotam uma criança pode juntar milhares de comentários cruéis numa rede e quase nenhum na vida real daquela família, no bairro ou na escola do filho.

Comentário: isso não desculpa ninguém. Quem escreve o insulto é responsável por ele. Mas entender o mecanismo ajuda a não tomar cada comentário como retrato fiel da sociedade. «A tela deforma», resume Mike.

5. Nem toda ofensa é crime

O texto é honesto ao evitar falsas expectativas. A liberdade de expressão também protege opiniões que incomodam. Alguém dizer que não gosta de uma canção, criticá-la ou fazer piada com ela não é ódio. «Faz parte de publicar coisas», escreve.

Comentário: a linha é cruzada quando o ataque mira o que você é. Quando a mensagem humilha por ser gay, lésbica, bi ou trans, incita violência ou discriminação, ameaça ou vira campanha repetida contra uma pessoa. Aí, na Espanha, entram o artigo 510 do Código Penal, sobre incitação ao ódio, e as agravantes por motivos discriminatórios.

6. Uma canção de amor pode falar de algo maior

O que torna o artigo interessante é o caminho: de uma canção de dor de cotovelo, com humor e exagero, para um tema que exige seriedade. É assim em boa parte da obra de Mike Sain't Louis, que mistura camp e ferida, riso e desabafo.

Comentário: o artista escreve todas as letras; a música e a interpretação vocal são produzidas com inteligência artificial, que ele usa como ferramenta de produção e arranjo sob sua direção artística. A palavra, a ideia e a direção são dele.

7. Um recado que também chega ao Brasil

Os dados do texto são espanhóis, mas a cena é universal. Qualquer pessoa LGBTQIA+ brasileira que já abriu o celular de manhã e encontrou uma enxurrada de comentários sabe do que «Forocoches» fala. A obra de Mike é pensada para a Europa e a América Latina, com canções em espanhol e também em inglês, francês ou português.

Comentário: às vezes, reconhecer a própria manhã num verso alheio já é um pequeno alívio.

Onde ouvir e ler

O artigo completo, em espanhol, está em https://mikesaintlouis.com/blog/treinta-insultos-al-despertar-odio-en-redes-y-ciberacoso-lgtbifobico. «Forocoches» e todo o catálogo podem ser ouvidos e baixados de graça, com as letras, em https://mikesaintlouis.com. As músicas também estão no Spotify, no Deezer e nas principais plataformas.

Sobre Mike Sain't Louis

Artista indie alternativo de Madri, Mike Sain't Louis se define como «o primeiro cantautor IA». É letrista, compositor, produtor musical, diretor artístico e CEO do selo independente MIKE SAIN'T LOUIS. Em cerca de dois anos, criou PLANETA GAYFOLK: 273 singles, mais de 280 videoclipes e uma trilogia que imagina a viagem a um planeta onde cada pessoa pode viver como é. Seu pop alternativo queer vai do electropop à copla, sem censura. Em 2024, «Tan Cateto» viralizou no TikTok.

Contato para imprensa

E-mail: info@mikesaintlouis.com Site: https://mikesaintlouis.com Instagram: @planetagayfolk