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O primeiro xingamento da música é pra mim: por que começo uma canção contra um ex me chamando de tonto
Em coluna de opinião, Mike Sain't Louis, artista indie alternativo de Madri e “o primeiro cantautor IA”, defende o autoinsulto como estratégia em “La casa de los mil cadáveres”

Madri, 25 de outubro de 2026. Por Mike Sain't Louis
O primeiro xingamento da minha canção é pra mim. O segundo também. O ex que espere a vez dele.
“La casa de los mil cadáveres” começa com uma pergunta que eu já me fiz na frente do espelho do banheiro mais vezes do que gostaria de admitir. Admito aqui porque é pra isso que escrevo canções:
Pero ¿Cómo soy tan tonto?
E, alguns versos depois, caso não tenha ficado claro, vem a versão ampliada:
Pero ¿Cómo soy tan fracasado?
Em português, mais ou menos: “mas como é que eu sou tão bobo?” e “mas como é que eu sou tão fracassado?”. A canção está no primeiro disco da minha trilogia, “Descubierto un nuevo planeta llamado GAYFOLK”, e na lista de singles de PLANETA GAYFOLK é a faixa 195 de 273, entre “Envejecer” e “Montaña rusa”. Repare nas vizinhas: uma fala de envelhecer de mãos dadas, a outra dos altos e baixos do amor. E no meio, esta, que é a queda livre com autoinsulto incluído.
Eu escrevo todas as minhas letras. A música e a interpretação vocal são produzidas com inteligência artificial, que eu dirijo. Por isso, cada palavra desta coluna, e da canção, é uma decisão minha. E a decisão de começar me xingando foi, acho, a melhor que tomei ao escrevê-la.
Primeiro eu
A maioria das músicas de dor de cotovelo começa apontando pra fora. Você me enganou. Você mentiu pra mim. Você é isso e aquilo. Tudo bem, todo mundo gosta de um bom dedo acusador de unha pintada. Mas eu tenho um costume, quase um tique, toda vez que escrevo sobre uma desilusão: antes de apontar o outro, aponto pra mim.
Que ninguém confunda isso com humildade. É estratégia.
Se eu me xingo primeiro, tiro de quem escuta a tentação de fazer isso. É como chegar num jantar com uma mancha na camisa e avisar antes de todo mundo: “Sim, eu sei, é molho de tomate, nem comentem”. A partir daí, a mancha é minha. Ninguém pode usá-la contra mim.
Numa canção de desamor acontece a mesma coisa. Quem ouve está pensando: mas como você não percebeu? Pois eu mesmo pergunto. No primeiro verso. E com palavras mais feias do que as que você usaria.
O “pero” do lado de fora
Um detalhe de pontuação que talvez só interesse a mim, mas que diz muito sobre como o autoinsulto funciona. Em espanhol, a pergunta se abre com um ponto de interrogação invertido. Na letra publicada, ele vem depois do “Pero”, e não antes. Ou seja: o “pero”, o “mas”, fica fora da pergunta, como um suspiro prévio. Primeiro você bufa. Depois se pergunta.
Tem quem diga que é erro, que a norma pede outra coisa. Pode ser. Eu gosto assim porque é como a frase acontece na vida real. Ninguém diz “como sou tão bobo?” do nada, a frio. Você diz depois de um “mas”, depois de estalar a língua, depois de largar as chaves na mesinha da entrada. O “mas” é o ruído de fundo da vergonha. Por isso nunca mexi nele.
Tonto, que não é o mesmo que ingênuo
Escolhi “tonto” com cuidado. Podia ter escrito ingênuo, que é mais fino e soa a romance clássico. Podia ter escrito confiante, que soa a reportagem sobre golpes no telejornal. Mas “tonto” é palavra de pátio de escola. É o que seu irmão mais velho diz quando passam a perna em você. É o que você fala em voz alta quando bate a perna na quina da mesa.
Um ingênuo tem algo de comovente, de personagem bom que a plateia quer proteger. Um tonto, não. Um tonto dá um pouco de raiva. E eu, naquele momento da canção, estava com raiva de mim mesmo. Queria que isso se notasse. Além do mais, em espanhol “tonto” rima com tudo, o que é muito cômodo pra alguém que escreve com rima de feira livre, como eu.
Fracassado, o segundo tapa
Se “tonto” é o peteleco, “fracassado” é o tapa de mão aberta. Aí já não falo só de não ter percebido a tempo. Falo de mim inteiro. Da minha vida toda, de uma vez.
E é justamente por ter dito isso tudo de mim antes que a canção ganha o direito de seguir em frente e contar o resto: o suborno com meio frango, as fofocas do condomínio, a barata do final. Depois de me xingar duas vezes, posso apontar o dedo à vontade.
Por que escrevo isto para quem me lê no Brasil
Não vou fingir que sei como cada um vive uma separação aí. Mas desconfio que o espelho do banheiro é igual em todo lugar, e que a pergunta “como eu não vi?” também. Se você já se fez essa pergunta, esta canção é sua, mesmo que o espanhol não seja. Tenho músicas também em português, e as portas do meu planeta estão abertas.
Na foto que acompanha esta coluna estou sentado numa escadaria de pedra, entre casas brancas de portas azuis, com o mar lá atrás. Uma escada é um bom lugar pra pensar em quantos degraus você desceu antes de admitir que caiu.
Onde ouvir e baixar
Todas as minhas músicas, com a letra de cada uma, podem ser ouvidas e baixadas de graça em https://mikesaintlouis.com. Também estão no Spotify, no Deezer e nas principais plataformas. O texto original, mais longo, está no meu blog: https://mikesaintlouis.com/blog/como-soy-tan-tonto-insultarme-a-mi-primero-en-la-casa-de-los-mil-cadaveres
Sobre o autor
Mike Sain't Louis é um artista indie alternativo que vive em Madri e se apresenta como “o primeiro cantautor IA”. Letrista, compositor, produtor musical e diretor artístico, comanda o próprio selo independente, MIKE SAIN'T LOUIS. Seu projeto PLANETA GAYFOLK reúne 273 singles e mais de 280 videoclipes feitos ao longo de uns dois anos, e foi descoberto por muita gente quando “Tan Cateto” viralizou no TikTok em 2024.
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