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Fiquei olhando uma capa até ela me contar a música: “Can't Wait”, uma jaqueta que acende e o dedo apontado para o teto
Os versos do novo single de Mike Sain't Louis, artista indie alternativo de Madri e “o primeiro cantautor IA”, ainda não foram publicados. Fui atrás do que dá para ver: neon, LED e um gesto que vem de 1977

Madri, 25 de outubro de 2026. Confesso que tentei ler a letra antes de qualquer coisa. Entrei na página de “Can't Wait” no site de letras de Mike Sain't Louis e dei com um aviso: os versos estão “em breve”. Fiquei um pouco frustrado, depois achei graça. Uma música chamada “não posso esperar” me obrigando a esperar. Então fiz o que dava para fazer: fiquei olhando a capa. E a capa, sinceramente, fala bastante.
Mike Sain't Louis é um artista indie alternativo que vive em Madri e se apresenta como “o primeiro cantautor IA”. Ele escreve todas as letras; a música e a interpretação vocal são produzidas com inteligência artificial, sob a direção dele. Num texto recente do blog, ele faz o mesmo exercício que eu: avisa que não vai tirar versos da cartola e se agarra ao que é verificável. A imagem, o título e o que já contou em outras canções. Segui o mesmo caminho.
Um corredor de neon
O cenário é um espaço industrial escuro, uma espécie de galpão ou corredor enorme cortado por tubos de luz colorida. Rosa, azul elétrico, amarelo, violeta. Alguns pendurados na vertical, como colunas; outros atravessando o teto na diagonal. O chão está molhado, ou tão polido que vira espelho, e devolve cada linha de luz esticada para baixo. A imagem parece duas vezes mais luminosa do que é.
Reconheci a estética na hora: boate de galpão, clube de madrugada, videoclipe de música eletrônica, cartaz de ficção científica dos anos oitenta. E não tem mais ninguém em cena. Só um rapaz no centro, dançando para uma pista vazia ou para uma multidão que a gente não vê.
O título atravessa o alto da capa em pinceladas rápidas: “CAN'T” em rosa forte, “WAIT” em amarelo. Embaixo, em branco e com a mesma letra nervosa, o nome do artista sublinhado por um traço rosa. Mike observa, e eu concordo, que até a tipografia parece impaciente. São manchas de tinta que não tiveram tempo de secar.
A jaqueta que se acende
O que mais me prendeu foi a roupa. O protagonista usa uma jaqueta preta brilhante, de verniz ou vinil, aberta sobre o peito nu, com fitas de LED costuradas nas lapelas e nas mangas, em rosa e azul. Elas se acendem como os tubos do fundo. É como se o rapaz fosse feito do mesmo material da boate. Como se a pista tivesse se vestido de gente.
Ele está de cabeça inclinada, olhos quase fechados, boca relaxada. Não olha para a câmera. Está em outro lugar, dentro da música. Com uma mão aponta para o teto; a outra, na altura do quadril, parece marcar o ritmo.
Mike escreve uma coisa sobre essa jaqueta que fiquei repetindo para mim: durante décadas, a roupa de festa tentou brilhar com lantejoulas, lamê dourado, purpurina. A versão de hoje já não reflete a luz: produz. É um jeito muito literal de dizer que alguém chega à pista disposto a ser o holofote.
E tem outra leitura dele que me pegou. Uma jaqueta que brilha também é armadura. As pessoas olham a luz antes de olhar o rosto. Quem já saiu para dançar com alguma peça chamativa sabe que a roupa fala primeiro, e que isso às vezes dá coragem para entrar num lugar onde você não conhece ninguém. O rapaz da capa não parece precisar de coragem. Mas a jaqueta o acompanha do mesmo jeito.
O gesto de 1977
Aqui eu sorri sozinho, porque esse dedo para cima tem árvore genealógica. Em dezembro de 1977 estreou “Os Embalos de Sábado à Noite”, com John Travolta como Tony Manero, um garoto do Brooklyn que leva uma vida cinzenta durante a semana e se transforma na pista no sábado. A imagem do cartaz, terno branco, mão para o céu, quadril de lado, virou um dos ícones visuais da época.
O que Mike nota é o que esse gesto diz. Não é saudação nem ameaça. É ocupar o espaço para cima: estou aqui, e esta noite é minha. Tony Manero não sabe esperar que a vida mude; vive com tudo as poucas horas em que a pista deixa. A capa de “Can't Wait” recolhe essa mesma energia, trocando o terno branco por uma jaqueta que se acende.
Ele lembra ainda que a trilha sonora do filme, com os Bee Gees à frente, virou um dos discos mais vendidos da história e levou a disco music a milhões de casas que nunca tinham pisado num clube. Foi a consagração do gênero e, ao mesmo tempo, o começo da sua queda. Gosto de pensar que um artista queer de Madri, em 2026, pega esse gesto de volta sem pedir licença.
Por que eu, daqui do Brasil, fiquei esperando
A gente conhece bem a pista como lugar de libertação e conhece também a ansiedade de não aguentar esperar a noite chegar. “Can't Wait” ainda não me deu as palavras, mas me deu o clima. Quando os versos saírem, vou voltar a esta capa para ver se acertei. Enquanto isso, o catálogo de Mike tem 273 singles e mais de 280 videoclipes para quem também não consegue esperar.
A foto que ilustra este texto mostra o próprio Mike de jaqueta de couro preta, diante de telhados alaranjados no fim da tarde. Outra jaqueta escura, outra luz, e a mesma sensação de que a noite está para começar.
Onde ouvir e baixar
Todas as músicas de PLANETA GAYFOLK podem ser ouvidas e baixadas de graça em https://mikesaintlouis.com, com a letra de cada uma quando publicada. Também estão no Spotify, no Deezer e nas principais plataformas. O texto completo de Mike sobre a capa está no blog: https://mikesaintlouis.com/blog/el-dedo-hacia-arriba-can-t-wait-la-chaqueta-de-led-y-el-arte-de-no-saber-esperar
Sobre Mike Sain't Louis
Mike Sain't Louis vive em Madri e é letrista, compositor, produtor musical, diretor artístico e CEO do próprio selo independente, MIKE SAIN'T LOUIS. Indie alternativo assumido, se apresenta como “o primeiro cantautor IA” e faz um pop alternativo queer, debochado e sem censura, que vai do electropop à copla. Sua trilogia GAYFOLK imagina a viagem a um planeta onde cada pessoa pode viver do jeito que é.
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E-mail: info@mikesaintlouis.com Site: https://mikesaintlouis.com Instagram: @planetagayfolk