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Duas décadas cabem em 3 minutos e 34 segundos: a rua a preto e branco a que o videoclipe de «20 años» regressa sempre
Mike Sain't Louis, artista indie alternativo de Madrid que se apresenta como «o primeiro cantautor IA», percorre cena a cena o vídeo de uma canção sobre o fim de uma longa relação, entre um supermercado de manequins, um cavaleiro de lantejoulas e um arquivo em chamas

Madrid, 25 de outubro de 2026. Uma rua estreita, de pedra, a preto e branco. Grades nas janelas, varandas de ferro. Ao centro, dois homens de mão dada caminham sem pressa. É assim que começa o videoclipe de «20 años», e é para lá que ele regressa uma e outra vez, como quem volta a casa depois de cada desvio. O autor, Mike Sain't Louis, artista indie alternativo radicado em Madrid que se apresenta como «o primeiro cantautor IA», dedicou ao vídeo um texto longo no seu blogue, onde anota, segundo a segundo, o que acontece no ecrã.
O resultado é quase um guia de museu para um filme de três minutos e meio.
Uma fotografia parada e um filme em movimento
A capa do single mostra um bolo de casamento rachado ao meio por uma fenda, com um noivo de smoking em cada metade e a parede salpicada de natas. É uma imagem do depois: a festa acabou e alguém deixou a faca em cima da toalha.
Para o vídeo, Mike procurou o contrário. «Queria movimento, ir e voltar, que o tempo passasse diante da câmara», escreve. Por isso o clipe não fica preso à mesa do banquete. Sai para a rua, atravessa o mar, entra num teatro, mete-se numa discoteca, deita-se num campo de trigo e acaba sempre no mesmo lugar.
O vídeo estreou-se no canal do artista a 27 de julho de 2025 e dura 3:34. A canção pertence ao segundo volume da trilogia GAYFOLK, «Ojalá se pudiera viajar a Gayfolk», e foi publicada com uma fileira de etiquetas que funcionam quase como um resumo do enredo: contacto zero, sobrevivente, sarar é rebeldia, justiça poética, memória e verdade, quebrei o ciclo, depois do narcisista.
Mike Sain't Louis tem contado publicamente que, com ajuda profissional, transforma em música anos de relações com parceiros narcisistas, para dar visibilidade ao abuso psicológico e às marcas que deixa na saúde mental. «20 años» pertence a essa linha do seu trabalho: não a da queixa, mas a de quem olha para trás já do outro lado.
O refrão que se vê
A rua a preto e branco é, nas palavras do próprio, «o refrão visual do clipe». Por cima dos dois homens — um de fato cinzento às riscas, gravata e chapéu de aba; o outro de camisa branca arregaçada, suspensórios e calças de pinças — acende-se o título em néon cor-de-rosa, em letra manuscrita, com o nome do artista por baixo. À volta, pequenas medusas de luz, também rosa, sobem e descem como bolhas.
O cinzento coloca a cena noutro tempo, ou pelo menos na memória, que é onde se guarda o que já passou. E os dois homens sorriem, tranquilos, como quem já fez aquele passeio cem vezes.
Quem quiser contar os regressos tem marcas para isso: por volta dos 12 segundos, outra vez aos 36 e aos 40, ao minuto, ao 1:20, de novo ao 1:53, ao 2:41 e nos últimos segundos. Sempre que o vídeo foge para um palco de cores ou para um lugar impossível, a rua traz tudo de volta.
Lantejoulas no corredor do supermercado
O primeiro choque de cor chega por volta do segundo 8. Uma mulher de vestido de lantejoulas turquesa, cauda longa, botas altas e uma flor no cabelo avança pelo corredor central de algo que parece um supermercado. Dos lados, em vez de prateleiras, há carrinhos de compras alinhados e manequins de tronco nu dispostos como se fossem clientes. Do teto caem folhas de papel branco, dezenas delas. O chão brilha de purpurina.
É um desfile de gala no sítio mais banal do mundo. E os papéis? Podem ser cartas, faturas, mensagens ou páginas de um diário. Mike recusa-se a explicar. «Prefiro que cada um decida o que está escrito neles», diz.
O guardião de auréola dourada
Aos 16 segundos, num palco às escuras rasgado por raios de néon rosa e azul, aparece uma figura de armadura de lantejoulas com um aro de luz dourada sobre a cabeça. À sua volta flutuam objetos prateados — microfones antigos, talvez candeeiros — que giram devagar. Pouco depois, a câmara aproxima-se e a figura fica imóvel, a olhar em frente, de mãos abertas.
O artista descreve-a como uma dessas personagens que o planeta GAYFOLK tira da cartola de vez em quando: «meio santo, meio estrela de cabaré». Não tem nome nem história dentro do clipe. Está ali como guardião ou testemunha, alguém que vê tudo sem intervir.
Vinte anos de papelada a arder
A cena que mais diz sobre o número do título surge por volta do segundo 24: uma sala comprida, cheia de arquivadores metálicos e papéis espalhados pelo chão. Pelo corredor caminha um homem com um casaco feito de retalhos, remendos e recortes, como se tivesse cosido sobre o corpo todos os documentos da sala. De cada lado, em cima de bidões, ardem pequenas fogueiras.
Vinte anos dão para muitos papéis. Contratos, fotografias, recibos, mensagens guardadas. Aqui, o arquivo inteiro está em chamas. Um homem atravessa o fumo vestido com o próprio passado.
Porque merece atenção em Portugal
Há neste vídeo algo que o público português reconhece sem esforço: a rua estreita de pedra e varandas de ferro, o peso da memória, a saudade de um tempo que se sabe que não volta. Mike Sain't Louis não fala de fado, mas «20 años» trabalha uma matéria próxima — a de olhar para o passado sem lhe pedir licença para seguir em frente.
E há uma razão prática: toda a música de Mike Sain't Louis se ouve e se descarrega gratuitamente em mikesaintlouis.com, com a letra de cada canção. Também está no Spotify, no Deezer e nas principais plataformas. O texto completo sobre o videoclipe está no blogue do artista: mais no blogue de Mike.
Sobre Mike Sain't Louis
Mike Sain't Louis é letrista, compositor, produtor musical, diretor artístico e CEO do seu próprio selo independente, MIKE SAIN'T LOUIS, sem editora nem intermediários. Escreve todas as letras; a música e a interpretação vocal são feitas com inteligência artificial, usada como ferramenta de produção e arranjos. O seu projeto, PLANETA GAYFOLK, reúne 273 singles e mais de 280 videoclipes, publicados ao longo de cerca de dois anos, e organiza-se numa trilogia de discos pensada como uma única viagem até um planeta onde cada pessoa pode viver tal como é. O seu estilo, pop alternativo queer com humor e sem censura, vai do electropop à copla e da balada ao pop alternativo, em espanhol, inglês, francês ou português. Em 2024, «Tan Cateto» tornou-se viral no TikTok.
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