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Um peixeiro de bigode entra numa canção de rutura: Mike Sain't Louis e a televisão espanhola como dicionário do desamor
O artista indie alternativo de Madrid, que se apresenta como «o primeiro cantautor IA», explica porque cita Antonio Recio, de «La que se avecina», como outros citariam Lorca, e o que essa personagem de sitcom resolve em três palavras dentro de «Esperma»

Madrid, 25 de outubro de 2026.
Quase sete anos de relação, nem um beijo de despedida, nem um último abraço. A canção está prestes a ficar séria quando, de repente, quem entra em cena não é um poeta do Século de Ouro nem uma diva da copla, mas um grossista de peixe e marisco de bigode farto. Chama-se Antonio Recio, é uma das personagens mais conhecidas da comédia televisiva espanhola «La que se avecina», e aparece a meio de «Esperma», um dos temas de Mike Sain't Louis, o artista indie alternativo de Madrid que se apresenta como «o primeiro cantautor IA».
Num texto recente do seu blog, Mike desmonta esse momento. Não para contar outra vez a história da canção, mas para explicar uma escolha que atravessa o seu catálogo: citar a televisão como outros autores citam os clássicos.
Uma fórmula mais velha do que parece
O ponto de partida é uma expressão banal: «como diria». «Como diria a minha avó», «como diz o ditado», «como diria o outro». Mike lembra que, em Espanha, se fala há séculos através de citações. Ninguém confia apenas na própria voz; chama-se uma testemunha com mais autoridade. Pode ser a avó, que viu tudo, o provérbio, que já disse tudo, ou esse «outro» que ninguém sabe quem é e que tem sempre razão.
Para Mike, essa testemunha sai muitas vezes do ecrã. E ele recusa que isso seja frivolidade. «Quando escrevo "como diria Antonio Recio", faço o mesmo que a tua avó quando diz "como dizia a minha mãe". Estou a chamar uma testemunha. Só que a minha usa bata de peixeiro», resume.
A explicação é geracional. As frases para nomear o que lhe acontecia não vieram da escola, conta, vieram da televisão da sala, ligada enquanto se punha a mesa, com o volume alto para se ouvir da cozinha.
O que a citação faz dentro da canção
O interessante, sublinha o autor, é a função daquela linha. A letra de «Esperma» vem de uma zona dura. Imediatamente antes do salto, fala de alguém que foi tão mau que merece «o silêncio e o castigo». Se a canção continuasse por esse caminho, diz Mike, sairia um drama de sobremesa, e não era isso que ele queria.
Queria dizer que houve coisas feitas às escondidas, nas costas de todos, sem as detalhar como quem redige um auto da polícia. E aí entra Recio. O que em prosa séria levaria duas estrofes resolve-se com uma referência, porque a personagem já traz o seu mundo consigo: o descaramento, a moral dupla, o senhor respeitável que de respeitável tem pouco. «A citação não informa, insinua. E numa canção de rutura a insinuação vale mais do que a denúncia», escreve.
Depois vem um «trakatrá», ruído de metralhadora de pátio de vizinhos, e a canção segue. A porta abriu-se e fechou-se.
A televisão como dicionário partilhado
Há quem veja nestas referências uma piada fácil, um autocolante de recordação colado a uma canção. Mike defende o contrário: a televisão é um dicionário comum. Basta escrever um nome para que milhões de pessoas vejam uma cara, um bigode, um tom de voz e uma maneira de estar no mundo.
Para quem escreve canções, isso vale ouro. Uma canção tem pouquíssimo espaço. Não há tempo para apresentar personagens nem descrever salas. «Um nome próprio da televisão é uma palavra com um mundo inteiro lá dentro», diz o artista.
O mesmo mecanismo aparece noutra canção da trilogia GAYFOLK, «Me rindo». Ali, a pergunta sobre se tudo aquilo não passaria de tomadas falsas de «La que se avecina» ou de «Caso cerrado» faz o trabalho de um tratado sobre a mentira. Dois programas de televisão chegam para perceber que a relação era uma mistura de sitcom de vizinhos e julgamento de estúdio.
Um panteão de ecrã
Fazendo o inventário, Mike reconhece que as suas letras foram juntando um pequeno panteão televisivo e pop, cada figura com a sua função: Antonio Recio para o que acontece pelas costas, La Veneno para quando é preciso enfrentar alguém de cara. Não houve plano, garante. Foi o que foi saindo.
Esta maneira de escrever encaixa no resto da obra. PLANETA GAYFOLK reúne 273 singles e mais de 280 videoclipes, publicados ao longo de cerca de dois anos de trabalho e organizados numa trilogia: «Descubierto un nuevo planeta llamado GAYFOLK», «Ojalá se pudiera viajar a GAYFOLK» e «El día de la liberación», a viagem até um planeta onde cada pessoa pode viver tal como é. O estilo vai do electropop à copla e do pop alternativo à balada, com humor, lado camp e letras sem censura sobre amor, desamor, ex-namorados, vizinhas coscuvilheiras e saúde mental. Mike escreve todas as letras; a música e a interpretação vocal são feitas com inteligência artificial, que ele usa como ferramenta de produção e arranjos.
Porque é que isto interessa em Portugal
Em Portugal conhece-se bem este gesto, mesmo sem Antonio Recio. Qualquer conversa de café está cheia de bordões tirados da televisão, das telenovelas, dos humoristas e dos anúncios que uma geração inteira sabe de cor. O texto de Mike põe em palavras uma coisa que também aqui se pratica sem pensar: a cultura popular como reserva de expressões para dizer o que dói sem cair no melodrama.
Há ainda a proximidade natural com a música espanhola e com a ficção do país vizinho, que muitos portugueses acompanham. E há a pergunta que fica para quem escreve em português: que personagens de ecrã caberiam, em três palavras, numa canção de rutura feita cá?
A fotografia que acompanha esta peça, um retrato simples contra fundo branco, ajuda a ler a proposta: nada de cenário, só a pessoa e as palavras. O resto, diz o artista, já está na cabeça de quem ouve.
Onde ouvir e descarregar
Toda a música de Mike Sain't Louis pode ser ouvida e descarregada gratuitamente em mikesaintlouis.com, com a letra de cada canção. Também está no Spotify, no Deezer e nas principais plataformas. O texto completo sobre Antonio Recio e «Esperma» está no blog do artista: mikesaintlouis.com/blog.
Sobre Mike Sain't Louis
Mike Sain't Louis é um artista indie alternativo com base em Madrid que se define como «o primeiro cantautor IA». Letrista, compositor e produtor musical, é também diretor artístico e CEO do seu próprio selo independente, MIKE SAIN'T LOUIS, sem editora nem intermediários. Com ajuda profissional, transforma em canções anos de relações com parceiros narcisistas, para dar visibilidade ao abuso psicológico e às marcas que deixa na saúde mental. Em 2024, «Tan Cateto» tornou-se viral no TikTok e levou muita gente até ao seu PLANETA GAYFOLK.
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