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Portugal ·

Li o texto mais sério de um artista que faz rir: Mike Sain't Louis e o pedido para deixarmos de calar o suicídio

O artista indie alternativo de Madrid que se apresenta como «o primeiro cantautor IA» interrompe a ironia habitual para falar de prevenção, com dados, sinais de alerta e uma mensagem simples: pedir ajuda funciona

Homem de cabelo preto encaracolado e barba curta, com camisa de linho cor de tijolo aberta sobre uma camisola interior branca de alças e tatuagens no peito e nos braços, sentado numa oficina luminosa com uma janela grande, plantas e tábuas de madeira ao fundo, a olhar para a sua direita.
Mike Sain't Louis numa oficina cheia de luz: o mesmo artista do humor sem filtros escreve agora sobre falar abertamente de saúde mental.

Madrid, 25 de outubro de 2026.

Antes de mais nada: se estás a pensar em pôr fim à vida, pára um momento e pede ajuda agora. Em Portugal, podes ligar para o SNS 24, 808 24 24 24, e pedir aconselhamento psicológico; em caso de perigo imediato, liga 112. Em Espanha, como lembra o próprio Mike Sain't Louis, existe o 024, gratuito, confidencial, 24 horas por dia e também com chat, e o Teléfono de la Esperanza, 717 003 717. O que sentes agora pode mudar. Há ajuda, e funciona.

Conheci a música de Mike Sain't Louis pelo lado do riso. Canções descaradas sobre ex-namorados, vizinhas coscuvilheiras e a vida queer em Espanha, com aquele humor camp que nos faz rir de coisas que doem. Por isso, quando abri o blog dele e encontrei um texto intitulado, em espanhol, «Falemos do suicídio sem tabu: pedir ajuda funciona», confesso que parei. Li-o duas vezes. E quis escrever sobre ele aqui.

Um texto que não fala dele

Mike Sain't Louis é um artista indie alternativo baseado em Madrid que se apresenta como «o primeiro cantautor IA». Escreve todas as letras; a música e a interpretação vocal são feitas com inteligência artificial, que usa como ferramenta de produção. Já tinha publicado uma série sobre saúde mental em que falava de si: de duas relações com pessoas que, com o tempo, entendeu serem narcisistas, da infância e da psicóloga que o está a ajudar a seguir em frente.

Este quinto texto é diferente, e ele próprio o avisa logo no início: não fala dele. Fala de algo que lhe importa demasiado para ficar numa nota de rodapé. Achei esse gesto bonito. Um artista habituado a pôr-se no centro da canção dá um passo atrás e deixa o centro para quem está a sofrer.

Porque é que o silêncio não protege

A ideia que atravessa o texto é simples e, para mim, foi a mais útil: o tabu não protege ninguém. Durante séculos, escreve Mike, o suicídio foi castigado, escondido nos registos, calado nos funerais. Muitas famílias ainda não conseguem dizer a palavra em voz alta. Mas o que não se nomeia não desaparece. Fica lá dentro, sozinho, sem ajuda.

Ele pede-nos para imaginar alguém que sofre tanto que começou a pensar em morrer. Se à sua volta ninguém fala disso, se o tema muda sempre que surge, essa pessoa aprende que não o pode contar, que o que sente é vergonhoso ou imperdoável. E isola-se ainda mais.

Durante muito tempo achou-se que falar de suicídio podia empurrar alguém a fazê-lo. Mike lembra que hoje se sabe o contrário: falar com cuidado, com informação fiável e com esperança ajuda a prevenir. Para escrever, diz, seguiu as recomendações da Organização Mundial da Saúde sobre como abordar o tema em público. Nada de descrições de métodos nem de lugares, nada de histórias contadas como se fosse uma saída. Em vez disso: dados, sinais de alerta, maneiras de perguntar, mitos desfeitos e, sobretudo, a quem ligar.

«Romper o tabu não é falar do suicídio de forma leviana», resume ele. «É o contrário: é fazer com que se possa falar dele a sério, em casa, na escola, no trabalho, numa consulta, numa canção ou num blogue.»

Os números, com cuidado

Mike não esconde os dados, mas trata-os com respeito. Segundo a OMS, morrem por suicídio mais de 720 mil pessoas por ano no mundo, e é uma das principais causas de morte entre os jovens dos 15 aos 29 anos. Em Espanha, segundo os dados definitivos do Instituto Nacional de Estatística, morreram por suicídio 4.116 pessoas em 2023: 3.044 homens e 1.072 mulheres. É a segunda causa de morte por causas externas, só atrás das quedas acidentais e muito acima dos acidentes de viação. Entre 2018 e 2022 o número subiu perto de 20 %; em 2023 desceu 2,6 %.

«Atrás de cada número há uma pessoa, e à volta de cada pessoa, uma família, amigos, colegas», escreve. Por isso, conclui, a prevenção não é só coisa de especialistas. É de todos.

Uma linha com três algarismos

Uma parte do texto é dedicada ao 024, a linha de atendimento à conduta suicida que o Ministério da Saúde espanhol lançou em maio de 2022. É atendida por profissionais formados e serve também para quem se preocupa com alguém, ou para quem perdeu alguém por suicídio e não sabe o que fazer com o que sente. A frase de Mike que mais me ficou foi esta: se alguma vez duvidares se «é para tanto», a resposta é sim. Ligar não incomoda ninguém. É para isso que a linha existe.

Para quem me lê em Portugal, a lógica é a mesma: o SNS 24 está lá para isso, e o 112 também.

Quando ele fala diretamente contigo

Há um momento em que o tom muda e Mike se dirige a quem está a ler com a ideia de morrer na cabeça. Não lhe diz que não é para tanto. Diz que o que sente é real e muito duro. E repete o que os profissionais repetem: o desejo de morrer costuma ser, no fundo, o desejo de que a dor pare, e a dor pode aliviar-se de outras maneiras, mesmo que agora não se vejam. O desespero, avisa, tem uma armadilha: convence-nos de que o que sentimos hoje é o que vamos sentir para sempre.

Saí da leitura com a sensação de que este texto, sem uma única rima, diz muito sobre o artista. O humor de Mike Sain't Louis nunca foi fuga; é uma forma de sobreviver e de fazer companhia. Aqui, a companhia vem sem piadas.

Onde ler e ouvir

O texto completo, em espanhol, está no blogue dele: https://mikesaintlouis.com/blog/hablemos-del-suicidio-sin-tabu-pedir-ayuda-funciona. Toda a sua música, com as letras, ouve-se e descarrega-se gratuitamente em https://mikesaintlouis.com, e está também no Spotify, no Deezer e nas principais plataformas.

Sobre Mike Sain't Louis

Mike Sain't Louis, artista indie alternativo de Madrid e autoproclamado «primeiro cantautor IA», é letrista, compositor, produtor musical, diretor artístico e CEO da sua própria editora independente, MIKE SAIN'T LOUIS. Em cerca de dois anos construiu PLANETA GAYFOLK: 273 singles e mais de 280 videoclipes, reunidos na trilogia GAYFOLK, uma viagem até um planeta onde cada pessoa pode viver tal como é. Com ajuda profissional, transforma em música anos de relações com parceiros narcisistas, para dar visibilidade ao abuso psicológico e às marcas que deixa. Em 2024, «Tan Cateto» tornou-se viral no TikTok.

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